quinta-feira, 4 de junho de 2026

ENTRE A GLÓRIA DO PASSADO E O ABANDONO DO PRESENTE – O TRISTE FIM DA ASSOCIAÇÃO DE MORADORES DO COROADINHO




No mês passado, o Coroadinho celebrou uma marca histórica: 49 anos de existência. O bairro, que pulsa intensamente na periferia de São Luís, cresce a cada dia. Novas construções se erguem, o comércio se expande e novas histórias de luta e superação são escritas diariamente por sua gente trabalhadora. No entanto, para planejar o futuro com dignidade, é fundamental fazermos um resgate profundo da nossa história e preservar a memória dos espaços que moldaram a identidade da comunidade.

Hoje, lançamos luz sobre um patrimônio que caminha a passos largos para o esquecimento: a Associação de Moradores do Coroadinho. Quem vê hoje a estrutura em ruínas, com paredes descascadas e tomadas por pichações, mal consegue imaginar que este local já foi uma das entidades comunitárias mais importantes e influentes de todo o bairro.

Do Reggae às Tragédias: O Palco de Memórias Intensas

Para os moradores mais antigos, o endereço evoca uma nostalgia viva. O espaço foi consagrado na memória popular como a "Casa do Reggae", consolidando-se na época como um dos templos da cultura de matriz jamaicana mais importantes da Ilha de São Luís. Ali, a comunidade se reunia em momentos festivos, celebrando a arte, a dança e o lazer. Contudo, a história do local também é manchada por episódios sombrios, tendo sido palco de mortes trágicas que chocaram os moradores ao longo dos anos.

O Declínio e as Denúncias de Corrupção

O declínio da outrora orgulhosa associação não aconteceu por acaso. Hoje, o prédio encontra-se em estado de total abandono e degradação física. As raízes dessa ruína remontam a uma severa crise de gestão que acabou parando na Justiça.

Em dezembro de 2010, um processo foi iniciado contra a administração da época. A mobilização ganhou força após denúncias formais feitas por Antônio Ceará, sócio da entidade, somadas a um abaixo-assinado que reuniu mais de 200 assinaturas de moradores revoltados com os rumos da instituição. A comunidade denunciava graves irregularidades no processo eleitoral, um desvio completo dos objetivos sociais da Associação e uma negligência profunda por parte dos diretores.

Entre os absurdos apontados, a diretoria simplesmente ignorava o pagamento de contas essenciais de serviços básicos, como a CAEMA e a CEMAR. Para agravar a situação, houve denúncias de apropriação ilegal de parte do terreno da própria entidade por membros da diretoria.

A Intervenção do Ministério Público

A denuncia dos moradores foi ouvido. Em 2014, como resultado definitivo desse processo, o Ministério Público do Maranhão (MPMA), por meio da Promotoria das Fundações, interveio formalmente em resposta às irregularidades.

As investigações do Ministério Público comprovaram ponto a ponto o desvio de finalidade da Associação. A promotoria atestou que a diretoria cometeu uma sucessão de atos ilícitos e de má-fé, tais como:
Abandono completo das instalações físicas;
Ausência total de prestação de contas aos associados;
Apresentação de balanços financeiros genéricos e sem comprovação;
Falta de atualização da documentação legal da entidade;
Emissão de cheques sem provisão de fundos;
Desvio de recursos provenientes de convênios firmados para beneficiar a comunidade.

A Ilusão de um Novo Começo·

Como parte das determinações do processo judicial para reorganizar a instituição, foi aberta a filiação para novos sócios e convocada uma nova eleição. O pleito histórico aconteceu no dia 8 de junho de 2014, contando com a participação ativa da comunidade e a disputa entre quatro chapas. Do total de 874 sócios que compareceram às urnas, a Chapa 04 saiu vitoriosa, recebendo 346 votos.

O que parecia ser a virada de chave e a tão sonhada reorganização da entidade, infelizmente, não passou de um sopro de esperança. A nova diretoria eleita não conseguiu desenvolver nenhum trabalho prático para fortalecer a associação junto à comunidade. Para piorar o cenário, uma série de conflitos internos dividiu e desmanchou o grupo político. O resultado foi o mesmo de antes: os líderes viraram as costas e abandonaram a entidade mais uma vez.

Sete Anos Depois: Nova Intervenção Judicial

A negligência continuou cobrando o seu preço. Sete anos após a primeira grande ação do Ministério Público, a Associação de Moradores do Coroadinho sofreu uma nova intervenção judicial. O motivo? A diretoria que havia assumido abandonou a entidade e não teve a capacidade de realizar sequer um novo processo eleitoral regulamentar dentro do prazo estatutário.

Como encaminhamento imediato dessa nova decisão da Justiça, foi eleita e empossada uma diretoria provisória com um mandato estrito de um ano que teria a missão de reorganizar juridicamente a entidade e, realizar uma nova eleição.

As imagens falam por se....

Um Apelo pela Memória e o Peso do Presente

Pensar nos 50 anos do Coroadinho nos convida a refletir sobre o bairro que queremos. Ver a fachada histórica da Associação de Moradores escorada na poeira e no descaso é ver um pedaço da nossa própria história ser apagado. O resgate desse espaço não é apenas uma questão de infraestrutura, mas de respeito ao legado de um dos maiores bairros da nossa capital.





Nenhum comentário:

Postar um comentário